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  • Bruna Pinhati

Cenas - catarina

Atualizado: 2 de Jul de 2020

Cena 1 - Noite. Porta de um apartamento.


Catarina bate na porta. Está de calças jeans pretas e moletom cinza. É jovem, não passa dos 30 anos. Mateus abre a porta e toma um susto. Da mesma idade de Catarina, usa uma samba canção e uma camiseta branca.

M: Catarina! (abaixa o tom de voz) Porra! Que que você tá fazendo aqui? (ele olha para trás diversas vezes)

C: Mateus, desculpa, é que eu esqueci o meu brinco com você! Você pode me devolver, por favor? Eu tenho um encontro hoje. Vai, rapidinho.

M: Catarina, quantas vezes eu já falei pra você não vir aqui, cara? Quem te deixou subir?

C: O Luís.

M: Caralho! Que brinco? Catarina, vai embora pelo amor de Deus, depois eu te dou isso. A Laura tá em casa.

C: Ah não, mateus. Eu vim até aqui, peguei ônibus, subi ladeira. Vai, corre lá no quarto, eu sei direitinho onde tá…

M: (de olhos arregalados) Cala a boca, Catarina!

Laura: (de dentro de casa) Mateus? Cadê você?

Mateus fecha a porta. Catarina toma um susto com a porta em sua cara e aperta a campainha várias vezes. Mateus abre a porta.

M: (baixo, energético) Eu vou te matar! L: Quem é?

Laura sai e aparece enrolada em uma toalha branca. Muda bruscamente de humor.

L: Que isso?! Tá fazendo o que aqui, Catarina?! (mais alto) Mateus, o que ela tá fazendo aqui em casa? Quem deixou subir, foi você que deixou subir?!

M: Não, amor, é que… Ela subiu, mas…

C: Laura. Calmou. Eu só vim falar sobre um negócio com o Mateus e já tô indo embora.

L: Falar sobre um negócio? Que negócio? Sobre o que você quer falar com o meu marido, ein?

C: Marido? Vocês só moram juntos, amor, não casaram não.

L: Morar junto é casar!

C: Tá bom.

L: Veio falar sobre o que com o Mateus, Catarina?!

C: Não posso te contar. É confidencial. Coisa nossa.

M: (aflito) Calma, pera aí também, não é coisa nossa, nossa assim, desse jeito. É coisa da família. Da família.

L: Que coisa da família? Mateus. O que é que a sua ex namorada tem a ver com a sua família? Me fala.

C: Ex namorada não. Ex mulher. A gente morou junto né. Por três aninhos.

L: Escuta aqui, Catarina…

M: Amor. (mateus segura os ombros de laura e a vira para si) Amor. Entra lá um pouquinho, eu já vou. Eu aposto que não deve ser nada demais, deve ser alguma besteira…

C: Isso… Besteirinha. Coisa boba.

Laura olha incrédula para Mateus, vira as costas e some dentro do apartamento.

M: Catarina, essa deve ter sido a pior ideia que você já teve na vida. (mais baixo) Vir até aqui em casa pedir o brinco que você deixou, olha… você sabe que não é pra ficar vindo aqui.

C: Ah, tá bom. É pra eu vir só quando você estiver sozinho e acompanhada de uma garrafa de vinho, né Mateus? (Mateus faz ssshhh) Ah, me poupe desse discurso, vai! Entra lá e pega meu brinco, eu coloquei dentro da primeira gaveta da sua cômoda.

M: Por que?! Por que você colocou lá?

C: Porque você tava me comendo em cima da cômoda, Mateus, esqueceu?! (mateus faz gestos energéticos para catarina abaixar o tom) Vai logo antes que eu vá!

Mateus fecha a porta. Catarina respira fundo e encosta a cabeça na parede, esperando. Parece reflexiva. Ouve-se as vozes de Mateus e Laura dentro do apartamento, parecem estar discutindo. Depois de alguns minutos, ele abre a porta novamente.

M: Tó! (entrega os brincos) Tchau! (fecha a porta)


Cena 2 - Dentro do apartamento de Mateus e Laura


Laura, ainda de toalha, aparece na sala.

L: O que foi que você entregou pra ela aí?!

M: Laura! Que susto!

L: Ein? Pode ir falando!

M: Laura, por favor, acredita em mim quando eu falo que tudo isso foi uma besteira da Catarina, ela…

L: (gritando) Para de mentir!

Silêncio.

L: (mais baixo) Para de mentir, Mateus… Só fala pra mim, por favor. O que ela veio fazer aqui? Aqui, na nossa casa, Mateus?

Mateus respira fundo. Parece desnorteado.

L: Me fala…

M: Laura, eu não posso te falar… É complicado... é segredo…

L: Segredo com a sua ex, Mateus? Você tá falando sério comigo? (Laura está prestes a chorar) Eu não aguento mais essa mulher rondando a nossa vida… Agora vir até aqui em casa é demais… Não dá.

M: Laura. (respira fundo) Vamos esquecer isso.

L: (dramática) Eu vou embora. Eu vou embora dessa casa, vou pegar minhas coisas. Pra mim chega! Vou embora!

M: (rindo) Para com isso! L: Você tá achando graça? (gritando) Na verdade quem tem que ir embora daqui é você! Eu vou jogar suas roupas pela janela, Mateus! Eu vou picotar tudo! Eu vou botar fogo nesse apartamento! Você tá mentindo pra mim na cara dura! Eu vou fazer um auê que você não tem ideia!

Ela faz que vai sair, mas Mateus segura seu braço.

M: Calma! Eu conto. Eu conto.

Laura senta no sofá. Arruma sua toalha branca, seus cabelos ainda pingam do banho. Cruza os braços e bate o pé no chão. Mateus passa as mãos pelo rosto. Respira fundo.

M: Laura… A Catarina…

Laura olha fixamente para Mateus.

M: A Catarina… Cometeu um crime.

Laura abre a boca.

L: (baixo) Um crime? Que crime?

M: Ela cometeu… um crime… ela quebrou a lei… a Catarina…

L: Que crime, Mateus?!

M: Ela…

L: Mateus! Fala!

M: Ela fez um aborto.

Laura abre a boca novamente, em choque. Está incrédula.

M: Sim. Ela fez um aborto.

L: (sussurrando) Quando?

M: Faz pouco tempo.

L: (ainda sussurrando, olhando para o chão) Como assim…

M: Pois é, ela…

L: (como se retomasse a consciência) E por que ela veio até aqui? (levantando do sofá) Era seu?!

M: (rápido) Não! Não era meu.

L: Então por que ela veio até aqui?!

M: Era do Thiago!

Laura toma outro susto, leva a mão a boca.

M: Era do Thiago. Sim. Era do meu irmão.

Laura senta novamente no sofá. Está mais incrédula do que nunca.

L: O Thiago e a Catarina…? Que? Como assim? Quando isso?

M: (desnorteado, sem saber para onde ir) É… Hum… Foi um tempo atrás… Numa festa.

L: Meu Deus. Ela realmente é uma piranha.

M: Laura.

L: Ficar com o seu irmão, Mateus?! Depois de ter te namorado? Como assim, que mulher louca.

M: É. Bom. Foi isso. A Catarina fez um aborto escondido do Thiago. E ela gastou todo o dinheiro que tinha e tava aqui pelo bairro fazendo não sei o que… Não tinha dinheiro pra voltar pra casa, olha isso, Laura. Aí eu dei dinheiro pra ela, foi isso que você viu aquela hora. Eu não queria contar, é uma história muito triste, mas você insistiu.

L: Escondido do Thiago? Thiago não ficou sabendo do aborto?

M: (olhando para os lados) Não. Então não conta pra ele, entendeu? Isso é segredo nosso agora, não vai falar com o Thiago sobre isso!

L: Ta bom, não vou. (ainda meio em choque) Nossa, que coisa…

Laura, tirando sua toalha, volta a sumir dentro do apartamento.



Cena 3 - Dia / Apartamento de Catarina


Laura encontra a porta aberta e entra devagar, um pouco desconfiada. Ela está toda arrumada, calça jeans branca, cabelos presos em um coque. O apartamento de Catarina é pequeno, bagunçado. Catarina aparece segurando uma caixinha de suco nas mãos, está de calça jeans e camiseta.

C: Oi. Oi, Laura. Deixei a porta aberta pra você entrar mesmo.

Catarina passa por Laura e fecha a porta. Bebe um gole do suco direto da caixinha.

C: Quer suco?

L: Não, eu…

C: (interrompendo) Eu tomei um susto quando o porteiro disse que uma tal de Laura Mendes queria subir. Achei até que era trote. (ri)

L: É, eu sei que foi inesperado, mas eu tinha que vir falar com você.

Catarina está desconfiada, mas disfarça com brincadeiras.

C: Tem certeza de que não quer suco? Tem outra caixa dessa fechada na geladeira, se você tiver nojo de mim… Se bem que você beija onde um dia eu já beijei, então…

L: (interrompendo) Catarina. Vamos sentar ali no sofá e conversar, por favor?

Catarina está nervosa. Assente com a cabeça e se senta no sofá, levantando migalhas que estavam por ali. Laura senta ao seu lado, desconfortável.

C: O que foi, Laura? Tá me assustando (ri)

L: O Mateus me contou tudo.

Silêncio. Catarina arregala os olhos e abre a boca diversas vezes, mas não consegue dizer nada.

L: Ele não queria me contar. Mas eu pressionei e ele contou.

Catarina passa as mãos pelo rosto. Parece não acreditar.

L: Eu sei que não sou a melhor pessoa, mas eu quis vir aqui conversar com você sobre isso.

C: (quase sem voz) Por que…?

L: Porque… (quase chorando) Eu precisei vir até aqui, Catarina. Eu precisava vir falar com você, eu me senti tão mal… Tão mal.

Catarina está confusa. Se ajeita no sofá.

C (baixo): Laura. A culpa não é sua. Eu é que...

L: É sim… É sim, eu também fiz isso. (chorando) E eu não contei pro Mateus. Não consegui.

C: Fez o que? Com quem?

L: Um médico no centro. Me indicaram e eu fui.

Catarina não está entendendo.

C: Laura, o que…?

L: (olhando fixamente para Catarina, voz embargada do choro) Eu também fiz um aborto, Catarina. Era do Mateus e eu não contei pra ele, eu não consegui contar. Eu também abortei e não contei pro pai. Eu sei o que você ta passando. (ela pega na mão de Catarina) Eu sei exatamente o que você ta sentindo.

Catarina está sem reação.

L: Eu sei que a gente não se dá bem, mas eu não consegui dormir essa noite depois do que o Mateus contou. Nós duas passamos pela mesma coisa. Nós temos isso em comum agora… Bom, tirando o Mateus. (ela ri, sem graça, enquanto limpa as lágrimas)

Catarina levanta do sofá e anda de um lado para o outro pela sala. Passa as mãos pelo rosto mais uma vez. Encara o chão, não sabe o que fazer, o que falar.

L: Desculpa se não foi legal eu ter vindo aqui, eu…

C: Não… Tudo bem. Eu só… O Mateus não deveria ter falado isso…

L: Tá tudo bem, Catarina. Eu não vou contar pro Thiago, eu prometo. É um segredo nosso agora.

C: Thiago… Meu deus…

L: Você foi sozinha também? O que você sentiu depois? (Laura segura as mãos de Catarina de novo, a puxando de volta para o sofá) É tão bom ter alguém com quem eu possa falar sobre isso. Eu nunca contei pra ninguém. Nunca contei da dor que eu senti, tanto física quanto emocionalmente…

C: Laura, quando foi isso?

L: Ano passado. E você?

C: Eu…

L: Você pode me contar.

Catarina levanta novamente.

C: Laura, desculpa. Eu não me sinto confortável falando sobre isso (respira fundo) ...ainda. Eu preciso processar, foi… foi recente. Eu não quero falar sobre isso agora.

Laura se levanta.

L: Tudo bem. Tudo bem, sem problemas. Mas saiba que quando quiser… Eu estou aqui. Tá bom?

Silêncio. Laura abraça Catarina desajeitadamente.

L: Eu vou… embora então. Ah, pera, tá aqui meu número, se quiser conversar. (ela entrega um papel) Bom. Eu vou. (vai até a porta e a abre. Vira para Catarina) É… desculpa por ontem. Eu não sabia de nada. Tava achando que o Mateus tava tendo um caso com você de novo… Bom. Desculpa. Eu vou.

Laura fecha a porta atrás de si. Catarina desaba sobre o sofá.


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