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  • Bruna Pinhati

conto de amor II - sanduíche de pernil

Atualizado: 2 de Jul de 2020

O relógio já marcava três da tarde e Fabiana ainda tinha mil coisas para fazer. A sala de jantar estava de pernas para o ar, literalmente: todas as oito cadeiras estavam viradas de cabeça para baixo, esperando o pano úmido acabar com os resquícios de poeira dali. Balde com água de um lado, todas as almofadas da sala em cima da mesa, vassoura no chão da cozinha, rodo no chão do quintal. E os benditos cachorros que não paravam de latir, implorando um passeio para fugir daquele caos.

A mulher resolveu continuar se fazendo de surda. Passeiam já já, primeiro arrumar! Como uma formiguinha saiu apressada terminando o que tinha começado, passou pano em todos os móveis do primeiro andar, não esquecendo das quase quinze molduras com fotografias em cima do aparador de madeira. Viagem para Holanda, para Tailândia e, claro, para Paris. As crianças alegres usando chapéus e segurando sorvetes. Suspirou e continuou correndo contra o relógio: aspirou o tapete, passou pano em todos os vidros, pano úmido debaixo da longa mesa de jantar. Quinze para às cinco ela corre para pegar as coleiras dos cachorros, dois pastores alemães.

Eles são muito mais fortes do que ela. A puxam para onde querem, ignoram suas reclamações como ela ignorara seus latidos por quase duas horas. Andam tão rápido que ela quase não consegue os segurar quando Marcos, o segurança da rua, dobra a esquina. Os cachorros amam Marcos. Conseguem correr até ele e o lambem, pulam, fazem aquela festa que só um cachorro consegue fazer. Ela sorri envergonhada.

"Desculpa, Marcos. Eu tentei segurar, mas você sabe como é difícil."

"Que isso, eu adoro esses dois aqui."

Fabiana observa a cena com um sorriso no rosto. Como é bondoso esse Marcos, nunca reclama de nada. Sempre passeando pelas ruas cheias de casas gigantescas do Pacaembu com um sorriso nos lábios, apito pendurada no pescoço. Cumprimenta todos os transeuntes que por ali passam, ajuda quem precisar de ajuda para estacionar. Era um homem alegre, leve.

Fabiana, como se de repente despertasse, puxa os cachorros para si e se despede de Marcos. Precisa voltar para a casa, já são quase cinco horas. Os cachorros saem correndo pelo quintal assim que ela abre o portão e entra na residência, suada não só pelo passeio num dia tão quente, mas por todo o trabalho de um dia inteiro de duração.

Cinco e dez as crianças entram correndo deixando suas mochilas pelo caminho, sobem correndo as escadas disputando uma corrida. Atrás delas vem Lilian, segurando sua enorme bolsa e a chave do portão.

"Oi, Fabiana. Tudo certo por aqui?"

"Tudo sim, dona Lilian. Aspirei o tapete e varri embaixo dele também, como a senhora pediu, viu?"

"Brigada, Fabi. Você fez janta?"

"Fiz sim, senhora. Tá dentro da geladeira, segunda prateleira."

"Ok, Fabi. Quando for pra servir eu te chamo, Pedro Henrique vai chegar um pouco mais tarde hoje."

"Tá bom."

Fabiana caminha até o seu quarto, pequeno cômodo ao lado da área de serviço. Nem um pouco decorado como o resto da casa, ela sente o cheiro do aposento que fica fechado na maior parte do tempo para evitar que os cachorros entrem e façam xixi, como já aconteceu seis vezes ao longo desses cinco anos em que trabalha ali.

Depois de servir o jantar e organizar toda a cozinha, ela deita em sua cama e assim fica por horas. Sem nenhuma preparação para o sono, ela fica deitada olhando para o teto do pequeno quarto. Lembra da Bahia, do som do mar calmo da noite, do calor que faz a pele grudar no lençol. Sente uma lágrima se formando no olho e logo a repele, pensando no que cozinhar para o almoço do dia seguinte. Talvez carne de panela e um omelete com abobrinha já que Renata teimou em parar de comer carne.

Enquanto pondera ela ouve um pequeno barulho em sua janela, minúsculo refúgio no alto do quarto, em cima de sua cama. Para conseguir alcançá-la ela precisa ficar de pé no colchão e foi o que fez para averiguar. Colocou os olhinhos para fora e se deparou com Marcos, agachado recolhendo pedrinhas na rua.

"Marcos! Que que isso?"

"Oi, Fabiana! - ele se assusta - Oi! Eu queria… Tem como você vir aqui fora rapidinho, tem?"

"Agora? Já tá tarde!" Era nove e meia da noite, as ruas de São Paulo sempre assustaram Fabiana.

"Vem, mulher! É rapidinho."

Fabiana desceu de sua cama e ponderou por alguns minutos. Soltou o cabelo que estava preso em um coque e o bagunçou um pouco. Olhou no pequeno espelho de moldura laranja e detestou! Prendeu tudo de novo. Será que passava um pouquinho de pó antes de sair? Escovava os dentes? Olhou para os pés e o esmalte vermelho da unha estava todo saindo e se amaldiçoou por não ter pego um pouco de acetona no banheiro de Lilian. Num ímpeto, abriu a porta e caminhou até a rua ao lado para onde dava sua janela. Encontrou Marcos sentado na calçada segurando uma pequena sacola de papelão.

"Oi, Marcos. Que isso aí?"

"Senta aqui, Fabiana" ela se senta ao seu lado "Você lembra dias desses que me contou que não encontrava de jeito nenhum acarajé que valesse a pena aqui em São Paulo?"

Fabiana sorriu. Havia dito isso há meses para Marcos em uma de suas passeadas com os cachorros.

"Eu ainda não encontrei também" ele disse e os dois caíram na risada. "Eu te trouxe aqui um lanche de pernil que achei no centro, de um lugar que acabou de abrir. Pessoal ta falando que é bom… Queria saber se você não topa experimentar comigo."

Fabiana assentiu com a cabeça e o observou tirar os lanches da sacola. Abriu o seu, se olharam e, juntos, deram cada um uma mordida em seu lanche. Pelos olhares, aprovaram o gosto que sentiram. O lanche tinha gosto de casa nova e pela primeira vez em cinco anos Fabiana sentiu o gosto de São Paulo. Marcos estava indo para sua segunda mordida quando foi surpreendido pelo beijo na bochecha que recebeu.

Os dois se olharam. Sorriram. Comeram o resto do lanche em silêncio, joelho grudado com joelho.

história de como meus avós se conheceram.


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