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  • Bruna Pinhati

conto de amor V - o show

o lugar estava completamente lotado. jovens, bonitos, felizes, todos esperavam o início do show tão aguardado. casais abraçados e amigos bebendo cerveja, no meio de tudo ele ainda escutava alguém contando sobre como odiou o novo filme do almodóvar e secretamente concordava, balançava a cabeça bem discretamente para não chamar atenção do grupo. olhou em volta e não conseguiu detectar mais ninguém que havia se aventurado a ir sozinho no show de uma banda com um repertório maciço de músicas românticas. conversava com ele mesmo, repetia a frase que disse para si no espelho de seu quarto “não é isso que vai te impedir, não é isso que vai te impedir” mas mesmo assim preferiu ficar pelos cantos ao invés de ficar no meio. pensava na vergonha que sentiria se encontrasse algum casal conhecido, quão patético e triste o julgariam. caminhou até o bar e pediu dois copos de cerveja. assim, quem o visse pensaria logo de cara que ele estava acompanhado já que segurava a bebida de alguém. talvez a acompanhante estivesse no banheiro, quem sabe. então voltou para seu canto bem na hora que as luzes se apagaram. o público começou a aplaudir, gritos ecoaram pelo espaço pequeno. a primeira música tomou conta de todo o auditório e, principalmente, dele, que sentiu necessidade de fechar os olhos para ser levado o mais longe possível pela melodia. sentia os pêlos do braço eriçarem e, sem se dar conta, começou a murmurar bem baixinho a letra da canção junto com o vocalista, também em transe. foi assim até a terceira música, quando finalmente resolveu abrir os olhos. bem na sua frente estava ela, cantando alto a quarta música que havia acabado de começar, os braços erguidos, o corpo oscilante. ele a observou por alguns instantes e percebeu que também estava sozinha. completamente sozinha e solta, se movimentava como quem não poderia ligar menos para a opinião de desconhecidos. ele sorriu e talvez por conta da luz fraca, da música tão amada, do primeiro copo de cerveja quase vazio, se aproximou. cantou com ela, dessa vez bem alto. ela foi receptiva e, com uma risada, passou o braço pelo ombro dele e assim foram até o fim da canção. enquanto o guitarrista trocava o instrumento para um violão, ele ofereceu a cerveja extra que vinha carregando desde o início. ela aceitou com um sorriso. ficaram lado a lado cantando, rindo e por vezes até pulando por mais três músicas. até que a mais linda começou a tocar. casais se aproximaram, beijos foram dados. ele se sentiu desconfortável. olhava para o lado oposto dela, uma mão segurando seu copo vazio e a outra enterrada no bolso traseiro do jeans. pensou em aproveitar a deixa e ir até o bar, mesmo essa sendo uma de suas músicas favoritas. mas ela foi mais rápida. tirou o copo vazio de sua mão e a colocou em sua cintura. sem esforço nenhum ela se encaixou nos braços dele e por ele foi abraçada instantaneamente. ele a segurou e por alguns segundos a apertou contra seu corpo e toda a letra da canção começou a fazer sentido. murmurou baixinho no ouvido dela todas as palavras enquanto ela, de olhos fechados, se sentia ser levada o mais longe possível. ele respirou o aroma de seus cabelos, cheiro de morango misturado com cigarro. começou a agradecer a si mesmo por ter se arrumado e saído de casa, por ter se deixado aproximar dessa garota completamente desconhecida. passaram o resto do show abraçados. as vezes ele apoiava sua cabeça na cabeça dela, as vezes até a beijava, respirando fundo o aroma de morango e em resposta ela beijava as mãos dele com todo o carinho e cuidado do mundo. cantaram juntos, se apertaram delicadamente. o show terminou. as luzes se acenderam, os aplausos tomaram conta. eles se separaram e bateram palmas, gritaram juntos e deram risada. ela olhou para ele, deu o sorriso mais lindo ao mesmo tempo em que ele também o fez. não trocaram nenhuma palavra durante todo tempo. se despediram assim, pelo olhar.


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