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  • Bruna Pinhati

conto de amor VI - tentativas

foi o quarto escuro que provavelmente me denunciou. helena deu três toques sóbrios na porta, perguntando em seguida se estava tudo bem. eu deixei a porta aberta de propósito, queria ser vista escondida na dor. ela chegou sozinha em casa, diferente do que imaginei. murmurei que estava de ressaca e ela deu meia volta, foi pro banheiro tomar uma ducha. tirei de debaixo da cama a vodka recém comprada, já estava na metade. bebi mais. isso de beber para esquecer é a maior mentira da história. quanto mais você bebe, mais você lembra. e aí tudo fica mil vezes pior, porque você tá bêbada e pode fazer alguma merda a qualquer momento, tamanha a dor. passei o dia assim, bebericando, dormindo, acordando… tudo no escuro. não funcionou, nada funciona. nada consegue tirar você da minha cabeça, tudo parece te fixar ainda mais em cada camada do meu cérebro. dentro da minha cabeça também é escuro. eu sou toda escura por dentro. então eu tentei dançar você. te coloquei em uma coreografia extremamente ensaiada até a exaustão, dancei em festas, encontros, até no palco do municipal. você fez morada dentro de cada movimento meu, torção, pulo, giro. o diretor achou intenso até demais e terminou a devolutiva com a palavra “clichê”. e não somos clichê, eu e você? tentei te transformar em arte mas nem isso consegui, você insiste em ser apenas uma lembrança dolorosa e obscura, um passado disforme e viciante, um erro quase que catastrófico. tentei sair por aí comprando roupas, me disseram que essa faz parte do rol de melhores terapias femininas. acabei comprando um vestido listrado em preto e branco igualzinho o de helena. só fui me tocar quando o vesti em casa e tive um lampejo dela usando um igual no dia em que nos mudamos pra esse apartamento. ela reclamava de não ter escolhido uma roupa mais apropriada para um dia de mudança - o vestido subia cada vez que ela carregava alguma coisa. eu, de regata e moletom, fiz graça. olho para a imagem no espelho e me sinto patética. a ironia da vida sorri pra mim. ela chegou e contemplou aquele espetáculo ridículo. fez graça, com amor, mas fez. me elogiou. você apareceu, me olhou por tempo demais, abaixou a cabeça. abraçou helena por trás, sussurrou alguma coisa no ouvido dela. ela sorriu, foi até o quarto dela. você me olhou de novo e a seguiu. comecei a ouvir os gemidos, as risadinhas. fiz questão de mergulhar de cabeça em qualquer assunto da companhia de dança. corri atrás de figurinos, maquiagens não alérgicas para a alérgica do elenco, corri atrás de tecidos para a coreografia três, dancei até a exaustão alguma dança qualquer - nunca mais a que eu te fiz. e isso não ajudou. tentei dormir com ajuda de calmantes naturais, meditar com ajuda de aplicativos, pintar com ajuda de tutorias no youtube. ficar dentro da minha própria casa e fazer parte do casal de vocês dois se tornou doloroso demais. apelidos carinhosos, cafuné no meio da sala, taças de vinho brindando. levei alguém do elenco pro meu quarto. fiz questão de gemer, gritar, gargalhar enquanto vocês cozinhavam na cozinha. nada funcionou. o toque rude e apressado desse encontro só me fez lembrar o seu toque suave e devagar. o gosto dele era ácido, o seu, doce. as investidas agressivas, as suas precisas. chorei o resto do dia, acho que até o resto da semana. o dia da estréia era o próximo. os camarins cheios de bailarinos e expectativas. consegui sentir o cheiro do nervosismo. as cortinas se abriram pra mim, a música tocou pro teatro e eu te vi na plateia, sozinho. não pensei e, chorando, dancei você inteiro.

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