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  • Bruna Pinhati

conto de amor III - os dentes de mercedes

Atualizado: 2 de Jul de 2020

Naquele sábado a noite, Marcelo exalava colônia até pelos poros. A mulher que sentou ao seu lado no bonde virou o rosto para o sentido oposto tamanho o cheiro que tomava o transporte. Era uma data importante: Marcelo e Mercedes estavam comemorando seis meses de namoro. Tocou a campainha de sua casa segurando um buquê de seis rosas vermelhas - uma para cada mês que passaram juntos.

A mãe de Mercedes se derreteu com o gesto e não parava de olhar para os pombinhos sentados no sofá a sua frente. Comentava com o marido como eram lindos, como combinavam, como fariam lindos netinhos para ela. Mercedes sorria. Marcelo gargalhava. Depois do jantar, sorrateiramente os dois subiram para o quarto de Mercedes e se jogaram na pequena cama de solteiro. Por ter uma relação tão perfeita com os pais da namorada, era concedido a eles quinze minutos sozinhos no quarto da menina - rigorosamente cronometrados. Gloriosos quinze minutos.

Marcelo beijava a pele de Mercedes com amor e devoção enquanto a menina encarava o teto sem grandes reações. Ele tocava sua bochecha, seu pescoço e ia descendo um pouco mais até…

- Não. - ela protesta - No peito ainda não.

- Mercedes - ele choramingava - Hoje fazemos seis meses, você não acha que...

E começava aquele discurso conhecido para ela. Mercedes olhava para Marcelo com aquele misto de desprezo e dó. Coitado daquele garoto, tão bobo e imaturo, só querendo sentir um peito em suas mãos. É mesmo digno de dó com seus olhinhos castanhos e covinha no queixo. Bonito de perfil, mas de frente nem tanto. Marcelo, velho conhecido da infância que acabou a namorando por tanto insistir na ideia. Ela suspirou. Interrompendo o garoto, que ainda discursava, pegou sua mão e a colocou em cima do seu peito direito. Ele arregalou os olhos, ficou sem ar.

Foi embora de sua casa depois de muitas declarações de amor eterno, abraços e beijos melados. Mercedes nem se surpreendia mais com a indiferença com que ouvia e sentia tudo aquilo. O modo como Marcelo a amava e a idealizava fazia com que ela sentisse exatamente o extremo oposto por ele: somente desprezo e dó.

No dia seguinte, na mesa do café com sua mãe, a ouviu contar horrorizada que Maria Claudia, prima de Mercedes, estava com seis cáries na boca. “Como foi que Flávia deixou chegar nesse estágio, seis cáries?” ela falava e falava mais para si do que para Mercedes. As seis cáries de Maria Claudia eram mais uma prova de como ela era uma mãe melhor do que sua irmã, eterna rival. Mercedes não levou de bom grado quando sua mãe disse que no dia seguinte a levaria ao dentista: queria ouvir do mesmo médico como a boca de sua filha era impecável.

O ambiente cheirava a esterilização e tutti frutti. Sentada confortavelmente em sua cadeira na sala de esperas, Mercedes folheava as páginas de uma revista com as novidades de pinturas para o rosto. Estava no meio de um bocejo quando ouviu que o dentista estava a sua espera. Ela, que já tinha idade para entrar sozinha em sua sala, levantou rapidamente e seguiu sua secretária.

Engoliu em seco quando se deparou com o dentista. Jovem, não devia passar dos vinte e cinco anos, cabelos castanho escuro e pele bronzeada. Ela logo notou que ele não era da pequena cidade do interior de São Paulo: tinha um sotaque carregado, cheio de xis e erres.

- O que te trás aqui, senhorita Mercedes? - ele perguntou com um sorriso.

Como era lindo aquele sorriso. Despreocupado… leve…

- Cárie - ela respondeu - Não. Não que eu esteja com cárie, eu nunca teria cárie. Eu vim pra ter certeza de que eu não… tenho cárie.

Ele riu e ela se juntou a ele. Sentou em sua cadeira reclinada e abriu a boca. Ele começou o exame e batata!: a boca de Mercedes estava completamente livre de cáries. Ele a parabenizou, trocou com ela um aperto de mãos e já ia abrindo a porta da sala quando Mercedes perguntou se ele tinha certeza absoluta de que seus dentes estavam perfeitos. O dentista sorriu e assegurou que não restavam dúvidas.

Em casa, Mercedes se pegou pensando em pretextos para ir ao dentista mais uma vez. Pensou em parar de escovar os dentes à noite, pensou que não seria tão ruim assim ter uma cárie. Pensou e pensou até enquanto Marcelo beijava seu pescoço, exalando hoje um cheiro familiar de Marcelo, nada de colônia.

Três dias depois Mercedes novamente seguiu a secretária até a sala do dentista.

- Olá! Algum problema, Mercedes?

E ela se derreteu ao ouvir seu nome saindo da boca do dentista. Inventou uma dor de dente (talvez seja uma cárie?), foi novamente examinada por ele e nada foi encontrado mas dessa vez ela notou que o dentista havia trazido mais pertences pessoais à sua sala. Viu em cima da sua mesa uma foto emoldurada: o dentista e uma mulher, ambos formais para o dia do casamento.

- Casado? - ela perguntou.

- Sim. - sorriu um pouco sem graça.

É verdade que o dentista também se interessou por Mercedes assim que a viu. Se foram os cabelos pretos cacheados na altura dos ombros, os gestos delicados ou o sorriso de quem sabe demais que chamaram sua atenção, ele não sabia. Mas se divertia com essa garota que beirava os vinte anos louca para ter uma cárie.

Mercedes saiu do consultório estranhamente confiante. Chegou a ter dó da mulher da foto: mal sabia ela que perderia o marido logo, logo.

Foram meses recheados de consultas ao dentista, todos escondidos de sua mãe. No começo, corria para o consultório jurando dores, incapacidade de limpar os dentes de trás com precisão. Inventou dois sisos, placa bacteriana nos dentes da frente, falta de fio dental nos do meio.

Até que um dia, vazia de mentiras, beijou o dentista assim que ele terminou de examinar sua boca. Foi um beijo com gosto de tutti frutti, apaixonado, avassalador. Marcelo nunca teve esse gosto, a esposa do dentista menos ainda. Mercedes e o dentista se olharam bem fundo nos olhos, como se já conseguissem ver um no outro todo o futuro que os aguardava pela frente.

Como os bisavós do Beto se conheceram.

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